Sale and leaseback: o que é? Guia para corretores vender imóvel alugado
Por Euder Carreiro (CRECI-MG 54.599) · Publicado em · Atualizado em · 9 min de leitura

Sale and leaseback é a operação em que o dono vende o imóvel e continua nele como inquilino, e foi o que o Carrefour fez com 22 lojas do Atacadão, vendidas a um fundo imobiliário. Para o corretor, o recado é prático: imóvel já alugado vale pelo contrato que carrega, e quem sabe ler prazo, reajuste e garantia ganha espaço em um mercado que quase ninguém atende bem.
Resumo rápido
- O Carrefour notificou ao Cade, em 9 de outubro de 2026, a venda de 22 imóveis ocupados pelo Atacadão a um fundo imobiliário, com locação imediata de volta, segundo o InfoMoney.
- O valor da operação atual não foi divulgado; num negócio parecido de 2024, 15 lojas saíram por R$ 725 milhões com aluguel de cerca de R$ 4,8 milhões por mês.
- Quem compra imóvel alugado compra renda, então o contrato pesa mais que a fachada.
- Os fundos imobiliários chegaram a 3,25 milhões de cotistas em junho de 2026, segundo a B3, o que aumenta a procura por imóveis com inquilino.
- O corretor pode captar esse tipo de imóvel hoje, desde que confira cláusula de vigência, preferência e prazo restante.
O que é sale and leaseback?
Sale and leaseback, em português "venda e locação de volta", é a venda de um imóvel com a assinatura simultânea de um contrato de aluguel em que o vendedor passa a ser o locatário. A empresa tira o dinheiro que estava parado no prédio, em vez de depender de empréstimo, e segue operando no mesmo endereço.
Para o comprador, a lógica é inversa: ele paga um preço e recebe, desde o primeiro mês, o aluguel de uma empresa conhecida, com prazo longo. No caso do Atacadão, a venda ocorreu para posterior locação e continuidade das atividades de varejo alimentar nas lojas. O comprador é, segundo o InfoMoney, o fundo Pátria Renda Urbana (HGRU), e a notificação ao Cade pede aprovação sem restrições em rito sumário.
O que o caso do Carrefour e do Atacadão mostra de concreto?
Mostra que imóvel comercial com inquilino forte virou produto de investimento negociado em lote. O InfoMoney informa que a notificação ao Cade foi feita em 9 de outubro de 2026 e que o valor não foi divulgado, então qualquer preço atribuído a essa operação específica seria chute.
Há, porém, um precedente com números. Em 22 de outubro de 2024, o Carrefour anunciou a venda de 15 imóveis do Atacadão por R$ 725 milhões a um fundo da Guardian Gestora, com contrato inicial de 13 anos, renovações de 5 anos e aluguel mensal próximo de R$ 4,8 milhões, conforme o portal Supervarejo. Fazendo a conta por conta própria: R$ 4,8 milhões por 12 meses dá R$ 57,6 milhões ao ano, ou cerca de 7,9% do preço pago. Esse percentual é a taxa de capitalização do negócio e é o número que investidor olha antes de olhar o terreno.
Resumo dos dados
Indicador Resultado Período Imóveis do Atacadão na operação notificada ao Cade 22 Notificação em 9/10/2026 Valor da operação de 2026 Não divulgado Outubro de 2026 Operação anterior: imóveis e preço 15 imóveis por R$ 725 milhões Outubro de 2024 Operação anterior: prazo e aluguel 13 anos + renovações de 5 anos; cerca de R$ 4,8 milhões por mês Outubro de 2024 Cotistas de FIIs na B3 3,25 milhões Junho de 2026 Fonte: InfoMoney — Carrefour notifica ao Cade venda de 22 imóveis a fundo de investimento imobiliário
Os demais números vêm de outras fontes: o aluguel e o prazo de 2024 são do Supervarejo, e os cotistas, do Investidor10, com dados da B3.
Por que isso interessa a quem vende imóvel de rua?
Porque o mesmo raciocínio vale em escala menor, e muita gente com uma sala comercial alugada, uma loja de rua ou um galpão pequeno ainda não percebeu. Quando o fundo paga caro por um contrato longo, ele está dizendo que o inquilino e o prazo são o ativo.
Imagine o dono de uma loja de 120 m² alugada a uma farmácia de rede há quatro anos, com contrato por mais seis. Anunciado como "ponto comercial", o imóvel atrai curiosos. Apresentado como "imóvel com renda mensal de R$ 18 mil, reajuste anual por índice e inquilino com seis anos de prazo", atrai investidor. O imóvel é o mesmo; o público e a conversa mudam. Os valores são só um exemplo para ilustrar a diferença de abordagem, e o mercado de salas comerciais também sente efeitos de mudanças de demanda, como mostra o artigo sobre a locação de escritórios depois do fim das bets.
Como o contrato de locação muda o preço de venda?
O preço sobe quando o contrato é longo, o inquilino é sólido e o aluguel está alinhado ao mercado, e cai quando falta prazo ou há risco de inadimplência. Por isso, antes de falar de valor, peça o contrato e o histórico de pagamentos.
A Lei do Inquilinato (Lei 8.245/1991) traz três pontos que o corretor precisa conhecer ao vender imóvel alugado:
- Cláusula de vigência (art. 8º): se o contrato for por prazo determinado e tiver cláusula de vigência em caso de venda, averbada na matrícula, o comprador deve respeitá-lo. Sem isso, o novo dono pode pedir o imóvel em 90 dias. Para investidor, contrato sem averbação é risco.
- Direito de preferência (art. 27): o inquilino tem prioridade para comprar em igualdade de condições. O locador precisa notificá-lo por escrito, com preço, forma de pagamento e demais condições.
- Ação renovatória (art. 51): em locação comercial, o inquilino que cumpre os requisitos legais, como contrato escrito por prazo determinado e prazo mínimo de 5 anos somando contratos, pode pedir a renovação na Justiça. Isso protege a renda do comprador, mas também limita a retomada do imóvel.
Confirme sempre o texto vigente da lei no site do Planalto e, nos casos sensíveis, envolva advogado imobiliário. Para o corretor, o essencial é não prometer "imóvel vazio" quando existe contrato.
Quem compra imóvel com inquilino?
Compram o investidor pessoa física que quer renda, o fundo imobiliário, o próprio inquilino e o empresário que quer encostar o ponto. A B3 registrou 3,25 milhões de cotistas de fundos imobiliários em junho de 2026, com cerca de 41 mil novos em um mês, segundo o Investidor10; é muita gente acostumada a pensar em imóvel como renda.
O investidor pessoa física de carteira pequena raramente compra um lote de 22 lojas, mas entende "aluguel dividido pelo preço". Tratar essa conta com clareza é o que diferencia o corretor de quem só diz "imóvel com ótima localização". Para justificar o preço pedido com comparáveis, o artigo sobre como avaliar imóvel para captação ajuda bastante.
Quais erros o corretor comete ao vender imóvel alugado?
Os erros mais comuns são anunciar sem avisar que há inquilino, esquecer a notificação de preferência e calcular a rentabilidade com aluguel bruto, sem descontar vacância, IPTU e custos de manutenção quando eles ficam com o dono.
Um caso típico: o corretor capta uma sala comercial, o cliente aparece com proposta, e só na escritura descobre que o contrato vence em quatro meses e não foi averbado. O comprador desiste, o inquilino reclama de visitas sem aviso e a comissão some. Outro erro é apresentar a rentabilidade de memória, sem planilha; o investidor percebe, e a confiança vai junto.
Evite com três hábitos: pedir contrato, aditivos e comprovantes dos últimos 12 meses antes de anunciar; registrar por escrito a notificação ao inquilino; e deixar claro no anúncio que o imóvel é vendido ocupado. A documentação do imóvel também precisa estar em dia, como mostra o check-list de documentos para venda.
Como calcular a rentabilidade de um imóvel alugado para o cliente?
Divida o aluguel líquido anual pelo preço de venda. Se a loja do exemplo rende R$ 18 mil por mês, são R$ 216 mil por ano; vendida por R$ 2,4 milhões, dá 9% ao ano antes de impostos. Os números são hipotéticos, só para mostrar a conta.
Depois compare com alternativas. A meta Selic está em 13,75% ao ano, segundo o Banco Central (série SGS 432), então um imóvel que rende 9% brutos precisa de argumentos além da renda: valorização esperada, aluguel que acompanha a inflação ou prazo contratual seguro. Em renda fixa, o investidor olha o imposto e a liquidez; no imóvel, olha vacância e custo de saída. Contar isso de forma honesta evita a decepção depois.
Perguntas frequentes
Sale and leaseback é a mesma coisa que alugar um imóvel?
Não. No aluguel comum, o dono continua dono e apenas cede o uso. No sale and leaseback, a propriedade muda de mãos e o antigo dono passa a pagar aluguel ao novo. A empresa libera capital e mantém a operação no endereço.
O Carrefour vendeu os imóveis do Atacadão por quanto?
O valor da operação notificada ao Cade em outubro de 2026 não foi divulgado, segundo o InfoMoney. Em 2024, uma venda anterior de 15 imóveis do Atacadão foi fechada por R$ 725 milhões, conforme o Supervarejo, mas são negócios distintos e os valores não se somam nem se comparam diretamente.
O comprador de um imóvel alugado precisa respeitar o contrato?
Depende. Pela Lei 8.245/1991, art. 8º, se o contrato for por prazo determinado e tiver cláusula de vigência averbada na matrícula, o comprador deve respeitá-lo. Sem a averbação, ele pode denunciar o contrato em 90 dias. Um advogado deve revisar cada caso.
O inquilino tem preferência para comprar o imóvel?
Sim, em regra. O art. 27 da Lei do Inquilinato dá ao inquilino preferência em igualdade de condições, e o locador deve notificá-lo por escrito. Há exceções previstas na lei, então confirme o caso concreto antes de fechar com um terceiro.
Vale a pena o corretor especializar-se em imóveis com renda?
Pode valer, porque o público é mais técnico e a conversa gira em torno de números, o que reduz a disputa só por preço. Exige estudo de contratos e de rentabilidade, mas cria um nicho em que poucos concorrem com argumentos sólidos.
Como um CRM ajuda nesse tipo de negociação?
Um CRM, como o da NexReal, registra cada proposta, notificação e retorno em um só lugar, com data. Em venda de imóvel alugado, isso comprova que a preferência do inquilino foi respeitada e evita perder prazo de resposta.
O que o corretor pode fazer agora?
Escolha os imóveis da sua carteira que estejam alugados ou sejam comerciais e faça este roteiro em uma semana.
- Segunda: liste os imóveis alugados de clientes e anote prazo restante, reajuste e inquilino.
- Terça: peça contrato, aditivos e 12 meses de comprovantes de pagamento ao proprietário.
- Quarta: confira na matrícula se há cláusula de vigência averbada.
- Quinta: monte a ficha de renda: aluguel líquido anual, preço pedido e percentual de rentabilidade.
- Sexta: ofereça ao proprietário uma conversa sobre vender com contrato, deixando claro o direito de preferência do inquilino.
Repita o processo todo mês e guarde as fichas no CRM. Em pouco tempo você terá uma carteira de imóveis com renda pronta para mostrar a investidores.
Sobre o autor

Euder Carreiro — Corretor de imóveis e construtor civil · CRECI-MG 54.599
Euder Carreiro atua há mais de 10 anos no mercado imobiliário: como construtor civil e, há 5 anos, também como corretor de imóveis (CRECI-MG 54.599). É formado em Engenharia de Petróleo e Gás pela UFES e em Engenharia de Segurança do Trabalho pela FUMEC. Criador da NexReal, escreve o Guia para ajudar corretores e imobiliárias a vender e alugar com mais método.