Fim das bets afeta a locação de escritórios? O que muda para corretores
Por Euder Carreiro (CRECI-MG 54.599) · Publicado em · Atualizado em · 11 min de leitura

A proibição das bets e a locação de escritórios têm uma relação menor do que a manchete sugere: segundo levantamento da SiiLA publicado pelo Estadão em setembro de 2026, as casas de apostas ocupam cerca de 16 mil m² de escritórios em São Paulo, e a saída total delas elevaria a vacância da cidade de 15,88% para 16,02%. Para o corretor, o recado é outro: rever contratos com inquilinos de setores regulados e buscar a demanda aquecida.
Resumo rápido
- A Medida Provisória publicada em 25 de setembro de 2026 proíbe exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no Brasil, segundo a Agência Gov.
- De acordo com a SiiLA, os aluguéis pagos por bets em escritórios de São Paulo somam R$ 22,6 milhões por ano, em torno de 16 mil m².
- Pela conta da consultoria, a vacância paulistana subiria só 0,14 ponto percentual se todas essas áreas fossem devolvidas.
- O mercado corporativo de São Paulo vive fase de oferta curta: a SiiLA aponta preço médio pedido de R$ 126 por m² no 2º trimestre de 2026, puxado pela volta ao trabalho presencial.
- O maior risco para imobiliárias pequenas está no detalhe: salas e casas alugadas para afiliados, agências e operações ligadas às apostas, que não aparecem nas estatísticas de lajes corporativas.
O que a MP das bets proibiu e quando começou a valer?
A MP assinada pelo presidente Lula foi publicada em 25 de setembro de 2026 e tem efeito imediato: proíbe explorar, ofertar, intermediar e anunciar apostas de quota fixa, o que inclui apostas esportivas e jogos online. Loterias já autorizadas por lei ficam de fora.
O cronograma divulgado pela Agência Gov prevê o fim de novos depósitos já na publicação, prazo para o apostador sacar saldo até 5 de outubro às 23h59 e retirada de sites e aplicativos do ar a partir de 6 de outubro. Depois disso, as empresas informam saldos aos bancos e a Caixa assume as devoluções pendentes a partir de 14 de outubro.
O governo informa ainda que havia 85 outorgas concedidas, de R$ 30 milhões cada (R$ 2,55 bilhões no total), e que o descumprimento pode gerar multas de até R$ 2 bilhões. Como toda medida provisória, o texto ainda passa pelo Congresso, que pode alterá-lo. Ou seja, o corretor deve tratar o tema como fato consumado no curto prazo, mas acompanhar a tramitação antes de tomar decisões de longo prazo com base nele.
Quanto espaço de escritório as bets ocupam hoje?
Pouco, quando comparado ao tamanho do mercado. O levantamento da SiiLA citado pelo Estadão identifica aproximadamente 16 mil m² ocupados por empresas de apostas em São Paulo e outros 2.838 m² espalhados por Belo Horizonte, Campinas, Porto Alegre e Rio de Janeiro.
Os contratos mais relevantes chamam atenção pelo valor unitário, não pelo volume. A maior área é da Betano, com 3.700 m² e aluguel anual de R$ 8,6 milhões; a Novibet ocupa 1.900 m² na região da Avenida Chucri Zaidan, com R$ 2,3 milhões por ano. Somados, os aluguéis das bets em São Paulo chegam a R$ 22,6 milhões anuais.
Resumo dos dados
Indicador Resultado Período Área de escritórios ocupada por bets em São Paulo cerca de 16 mil m² levantamento de set/2026 Aluguel anual pago por bets em São Paulo R$ 22,6 milhões levantamento de set/2026 Vacância de escritórios em SP hoje / sem as bets 15,88% / 16,02% simulação de set/2026 Área vaga total de lajes corporativas em SP 881,4 mil m² 2º tri de 2026 Vacância estrutural (vaga há mais de 3 anos) 454,8 mil m² 2º tri de 2026 Preço médio pedido de escritórios em SP R$ 126/m² 2º tri de 2026 Outorgas de bets concedidas pelo governo 85 (R$ 2,55 bilhões) até set/2026 Fonte: SiiLA via Estadão — Qual é o impacto da proibição das bets no setor imobiliário?; SiiLA via Forbes Brasil — Volta ao presencial expõe escassez de escritórios; Agência Gov — MP que proíbe as bets
O que é taxa de vacância de escritórios?
Taxa de vacância é o percentual da área de escritórios disponível para locação que está desocupada em relação ao estoque total de uma região. Ela funciona como termômetro de poder de negociação: vacância alta favorece o inquilino, que consegue carência e desconto; vacância baixa favorece o proprietário, que sustenta o preço pedido.
Dois detalhes ajudam a ler o número com mais precisão. O primeiro é o recorte: consultorias diferentes medem classes de prédios diferentes (A+, A, B) e por isso publicam taxas distintas para a mesma cidade. O segundo é a vacância estrutural, ou seja, a área que fica vaga por anos porque o prédio envelheceu ou está mal localizado. Segundo a SiiLA, mais da metade dos 881,4 mil m² vagos em São Paulo no 2º trimestre de 2026 estava desocupada havia mais de três anos. Na prática, a disputa por bons endereços é mais forte do que a taxa geral indica.
A saída das bets vai derrubar o aluguel comercial?
Na leitura da SiiLA, não. O fundador e CEO da consultoria, Giancarlo Nicastro, avalia o efeito como desprezível para o setor, porque a demanda por escritórios está aquecida com o retorno ao presencial. Em entrevista à Forbes Brasil, ele explicou que a volta ao escritório aumenta a procura e, ao mesmo tempo, reduz a oferta disponível num momento de poucas entregas de prédios novos.
Os números regionais reforçam essa análise. Conforme a Revista Buildings, a vacância de escritórios classe A na região da Chucri Zaidan, onde fica um dos contratos de bets, caiu de 14,4% para 13,1% entre o 1º e o 2º trimestre de 2026, com absorção líquida positiva de 24 mil m². Na Nova Faria Lima, a vacância ficou em 6,35% e o preço médio pedido subiu para R$ 322,36 por m².
Isso não significa que nenhum proprietário vai sofrer. Quem tem um único andar alugado para uma bet perde a receita de uma vez e precisa de tempo para recolocar o espaço. A diferença é que, com oferta curta nos eixos mais procurados, esse intervalo tende a ser menor do que seria em anos de vacância elevada. Trata-se de uma avaliação de mercado, não de uma garantia: prédios mais antigos ou fora dos eixos principais podem demorar bem mais.
O que muda para corretores e imobiliárias fora de São Paulo?
Fora da capital paulista, o impacto direto em lajes corporativas é pequeno, já que a SiiLA mapeou menos de 3 mil m² de bets em outras quatro cidades. O efeito mais provável aparece em imóveis menores e menos visíveis nas pesquisas das consultorias.
Pense em salas comerciais alugadas por afiliados que viviam de divulgar apostas, estúdios de produção de conteúdo, agências de marketing com carteira concentrada no setor, pontos de atendimento e até casas usadas como base por pequenas operações. Como a MP também veta a publicidade das apostas, parte dessa cadeia perde receita de uma hora para outra. Imobiliárias que administram locação comercial em cidades médias podem ter esses inquilinos sem saber, porque o cadastro costuma registrar só a razão social e um CNAE genérico de marketing ou serviços.
Há também um efeito indireto que merece monitoramento, sem conclusões apressadas: pessoas físicas que complementavam renda com apostas ou com a divulgação delas podem ter mais dificuldade para pagar aluguel residencial. Ainda não há dado público que meça isso, então a recomendação é acompanhar a inadimplência da própria carteira nos próximos meses em vez de presumir um aumento.
Como proteger contratos de locação com inquilinos de setores regulados?
O primeiro passo é saber quem são esses inquilinos e qual garantia cada contrato tem. A partir daí, a imobiliária consegue antecipar conversas em vez de reagir a um aviso de devolução das chaves.
Pela Lei do Inquilinato (Lei 8.245/1991), o inquilino pode devolver o imóvel antes do fim do prazo pagando a multa pactuada, proporcional ao tempo de contrato cumprido; o proprietário, em regra, não pode retomar o imóvel durante o prazo. Por isso, a multa rescisória e a garantia (fiança, seguro-fiança, caução ou título de capitalização) são o que realmente protege o locador. Vale checar se a garantia está vigente e se o fiador ainda tem patrimônio compatível com o valor do aluguel.
Em contratos comerciais de valor alto, a mudança regulatória pode abrir discussões jurídicas sobre rescisão. Nesses casos, oriente o proprietário a consultar um advogado antes de aceitar ou negar qualquer proposta. Para quem administra muitos contratos, tributação também entra na conta; o artigo sobre IBS e CBS no mercado imobiliário mostra como a reforma tributária afeta a locação.
Onde estão as oportunidades de locação comercial agora?
As oportunidades estão nos inquilinos que seguem procurando espaço com a volta ao presencial e nos proprietários que vão receber áreas devolvidas. Os dois lados precisam de um corretor que conheça a região e responda rápido.
Na ponta da demanda, Nicastro cita que a procura começa pelos endereços mais desejados e depois se espalha para regiões como Marginal Pinheiros e Chácara Santo Antônio. Segundo a Revista Buildings, a Chácara Santo Antônio teve a maior queda de vacância classe A entre o 1º e o 2º trimestre (de 30,33% para 24,66%), com preço médio pedido subindo de R$ 62 para R$ 82 por m². É o tipo de movimento que o corretor local percebe antes de virar manchete.
Na ponta da oferta, um andar devolvido por uma bet costuma vir mobiliado e com infraestrutura de tecnologia pronta, o que interessa a empresas que querem se instalar rápido. Captar esse imóvel cedo, com fotos e ficha técnica bem feitas, faz diferença. Se a sua imobiliária ainda depende só de portais para gerar contatos comerciais, o guia como gerar leads imobiliários por canal traz estratégias que funcionam também para locação corporativa.
O que o corretor pode fazer agora?
A ação mais útil é mapear a carteira nesta semana, antes que os pedidos de rescisão cheguem. Depois, transformar o movimento de mercado em captação.
- Filtre a carteira de locação. Liste inquilinos pessoa jurídica ligados a apostas ou ao marketing de afiliados do setor. Confira o CNAE e a presença digital de cada empresa.
- Revise garantias e multas. Para cada contrato sensível, confirme se a garantia continua válida e simule a multa proporcional em caso de saída antecipada.
- Ligue para o proprietário antes do inquilino. Explique o contexto com os dados da SiiLA, alinhe o preço mínimo de recolocação e combine se aceita carência.
- Prepare o anúncio de reposição. Fotos, metragem, vagas e infraestrutura prontas encurtam o tempo de imóvel vazio.
- Registre tudo num CRM. Um sistema como o da NexReal ajuda a acompanhar vencimentos, garantias e o funil dos interessados em cada espaço, sem depender de planilhas soltas.
- Publique conteúdo local. Um texto sobre vacância e preço de salas comerciais na sua região atrai proprietários e empresas; veja como aparecer no Google sendo corretor de imóveis.
- Acompanhe a MP no Congresso. Mudanças no texto podem alterar prazos e o destino das empresas do setor.
Perguntas frequentes
A proibição das bets já está valendo?
Sim. Segundo a Agência Gov, a MP foi publicada em 25 de setembro de 2026 e produz efeitos imediatos, com fim de novos depósitos já nessa data. Sites e aplicativos devem sair do ar a partir de 6 de outubro. O Congresso ainda vai analisar o texto e pode modificá-lo.
Quanto as bets pagam de aluguel de escritório em São Paulo?
De acordo com a SiiLA, citada pelo Estadão em setembro de 2026, as casas de apostas pagam cerca de R$ 22,6 milhões por ano em aluguel de escritórios na capital paulista. A área ocupada é de aproximadamente 16 mil m².
A vacância de escritórios vai subir muito com a saída das bets?
Não, pela simulação da SiiLA. Se todas as bets deixassem seus escritórios em São Paulo, a vacância passaria de 15,88% para 16,02%. A consultoria considera o efeito desprezível diante da demanda gerada pela volta ao presencial.
O inquilino que é uma bet pode sair antes do fim do contrato?
Pode, desde que pague a multa prevista no contrato, proporcional ao período cumprido, como estabelece a Lei do Inquilinato. Situações específicas envolvendo a mudança regulatória devem ser analisadas por um advogado, especialmente em contratos de valor alto.
Imobiliárias de cidades pequenas precisam se preocupar?
O impacto em grandes escritórios é concentrado em São Paulo, mas salas e imóveis alugados por afiliados e agências ligadas às apostas existem em todo o país. Vale revisar a carteira de locação comercial e acompanhar a inadimplência nos próximos meses.
Andares devolvidos por bets são boa oportunidade de captação?
Podem ser, principalmente nos eixos com vacância em queda. Esses espaços costumam ter infraestrutura pronta, o que atrai empresas que precisam se instalar rápido. O corretor que conversa cedo com o proprietário sai na frente na recolocação.
Sobre o autor

Euder Carreiro — Corretor de imóveis e construtor civil · CRECI-MG 54.599
Euder Carreiro atua há mais de 10 anos no mercado imobiliário: como construtor civil e, há 5 anos, também como corretor de imóveis (CRECI-MG 54.599). É formado em Engenharia de Petróleo e Gás pela UFES e em Engenharia de Segurança do Trabalho pela FUMEC. Criador da NexReal, escreve o Guia para ajudar corretores e imobiliárias a vender e alugar com mais método.