Home equity bate recorde em 2026: o que muda para corretores e imobiliárias
Por Euder Carreiro · Publicado em · Atualizado em · 9 min de leitura

O home equity, crédito em que o proprietário oferece o próprio imóvel como garantia, vive o melhor momento da sua história no Brasil: segundo a Abecip, as concessões somaram R$ 6,67 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 30,9% sobre o mesmo período de 2025. Para corretores e imobiliárias, isso significa clientes usando a linha para trocar dívidas ou reformar e mais imóveis à venda com alienação fiduciária na matrícula.
Resumo rápido
- As concessões de home equity somaram R$ 6,67 bilhões no 1º semestre de 2026, alta de 30,9% sobre o 1º semestre de 2025, segundo a Abecip.
- As taxas nos cinco maiores bancos ficaram entre 1,12% e 1,80% ao mês, bem abaixo do empréstimo pessoal tradicional.
- O número que o cliente deve comparar é o Custo Efetivo Total (CET), e não só a taxa mensal anunciada.
- Imóvel com home equity pode ser vendido, desde que o saldo devedor seja quitado e a garantia baixada em cartório.
- Na captação, o corretor deve pedir a matrícula atualizada para identificar alienação fiduciária antes de anunciar.
Para corretores e imobiliárias, o assunto deixou de ser coisa de banco. Parte dos clientes vai usar essa linha para reorganizar dívidas, reformar ou juntar capital para outra compra, e mais imóveis anunciados à venda vão chegar com uma alienação fiduciária em nome de um banco registrada na matrícula. Saber como o produto funciona, e quanto ele custa de verdade além da taxa, virou parte de um bom atendimento.
O que é home equity e por que ele cresce em 2026?
Home equity é o nome que o mercado dá ao empréstimo com garantia de imóvel, também chamado de refinanciamento imobiliário. O dono de uma casa ou apartamento quitado (ou com boa parte já paga) entrega o bem ao banco em alienação fiduciária e recebe um valor que pode usar como quiser. Como o credor corre menos risco, os juros ficam bem abaixo dos cobrados em linhas sem garantia.
Os números da Abecip mostram que a procura ganhou força ao longo do ano. No primeiro trimestre, as concessões chegaram a R$ 3,166 bilhões, 25,83% acima do mesmo trimestre de 2025 e o maior volume já registrado pela entidade para o período. No fechamento do semestre, o total foi a R$ 6,67 bilhões, com R$ 1,237 bilhão concedido só em junho. O estoque da carteira alcançou R$ 34,1 bilhões, avanço de 27% em doze meses.
Dois fatores ajudam a explicar esse ritmo. O primeiro é o custo do crédito comum: com a meta Selic em 13,75% ao ano, conforme a série 432 do Banco Central, empréstimos sem garantia seguem caros e o consumidor busca saídas mais baratas. O segundo é o Marco Legal das Garantias (Lei 14.711, de 30 de outubro de 2023), que passou a permitir novas dívidas com o mesmo credor dentro da sobra de garantia da operação original, como explicou a Agência Senado na época da sanção. Um imóvel que já garante uma dívida pequena pode, assim, sustentar outra operação com o mesmo banco. O movimento acompanha a retomada mais ampla do setor, detalhada no nosso artigo sobre o crédito imobiliário em 2026 e o que ele significa para corretores.
Resumo dos dados
Indicador Resultado Comparação Concessões de home equity no 1º semestre de 2026 R$ 6,67 bilhões +30,9% sobre o 1º semestre de 2025 Concessões no 1º trimestre de 2026 R$ 3,166 bilhões +25,83% sobre o 1º trimestre de 2025 Concessões em junho de 2026 R$ 1,237 bilhão Mês isolado Estoque da carteira de home equity R$ 34,1 bilhões +27% em 12 meses Valor médio emprestado R$ 267 mil Prazo médio de 13 anos LTV médio (empréstimo sobre valor do imóvel) 33% Limite de até 60% nos grandes bancos Fonte: Abecip, dados do 1º semestre divulgados em julho de 2026 — reportagem do Portas e Abecip, dados do 1º trimestre de 2026 — reportagem do Portas
Todos os números da tabela são dados observados, não projeções. Um detalhe chama atenção: com LTV médio de 33%, o valor emprestado costuma ficar em torno de um terço do preço do imóvel, bem abaixo do teto que os bancos aceitam. Ou seja, quem contrata tende a ser conservador no valor pedido.
Quanto custa o crédito com garantia de imóvel?
Um levantamento publicado pelo Portas nos sites dos cinco maiores bancos do país (Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Santander e Itaú) encontrou taxas de home equity entre 1,12% e 1,80% ao mês. Na mesma reportagem, dados de março de 2026 do Banco Central apontavam 6,67% ao mês no empréstimo pessoal tradicional e 3,82% ao mês no consignado privado. A distância entre essas linhas é o principal argumento de venda do produto.
Só que a taxa anunciada não conta a história inteira. O número que o cliente precisa comparar é o Custo Efetivo Total (CET), que reúne juros, seguros exigidos pelo banco, tarifa de avaliação do imóvel, despesas de registro do contrato em cartório e tributos. Em operações longas, como o prazo médio de 13 anos registrado pela Abecip, uma diferença pequena na taxa mensal vira uma quantia alta no total pago.
Por isso a recomendação ao cliente é simples: pedir a simulação completa em pelo menos dois bancos, olhar o CET anual e o valor total das parcelas somadas, e não só a prestação do primeiro mês.
Para que o cliente usa o home equity?
Na leitura do presidente da Abecip, Michel Cury, a linha tem custo mais baixo e aplicações variadas, com destaque para a troca de dívidas caras e para necessidades emergenciais de caixa. No dia a dia de quem vende e aluga imóveis, quatro situações aparecem com frequência.
Comprador com dívidas que travam o financiamento
Um cliente que quer trocar de imóvel, mas carrega parcelas de cartão e empréstimo pessoal, pode ter a análise de crédito prejudicada pelo comprometimento de renda. Trocar essas dívidas por uma parcela menor, garantida pelo imóvel atual, pode reorganizar o orçamento. A decisão é do cliente e do banco, e o corretor não deve prometer aprovação de nada.
Proprietário que quer reformar antes de vender ou alugar
Um apartamento com cozinha antiga ou banheiro desgastado costuma ficar mais tempo anunciado. Para o locador, uma reforma bem planejada pode encurtar a vacância. O crédito com garantia é uma forma de financiar essa obra sem recorrer ao cheque especial.
Cliente que quer comprar um segundo imóvel
Há quem use o valor liberado para compor capital na compra de outro imóvel. Aqui o cuidado precisa ser redobrado: a pessoa passa a ter duas obrigações de longo prazo e coloca a casa onde mora em risco se a conta não fechar.
Pequeno empresário com necessidade de caixa
Muitos donos de imobiliária pequena e corretores autônomos também são o público da linha. Vale lembrar que dívida para cobrir despesa recorrente tende a voltar maior no ano seguinte.
Imóvel com home equity pode ser vendido?
Pode, mas exige organização. Enquanto a dívida existir, o imóvel fica em alienação fiduciária a favor do banco, e isso aparece na matrícula. A venda funciona de forma parecida com a de um imóvel financiado: o saldo devedor precisa ser quitado, normalmente com parte do dinheiro do comprador, e depois o banco emite o termo de quitação para que o cartório cancele o registro da garantia.
Com o Marco Legal das Garantias, um mesmo imóvel pode estar vinculado a mais de uma operação com o mesmo credor. Na prática, o corretor deve:
- pedir a matrícula atualizada logo na captação, e não só na hora da proposta;
- solicitar ao proprietário a declaração de saldo devedor emitida pelo banco;
- conferir se há mais de uma operação garantida pelo imóvel;
- combinar no contrato de compra e venda como e quando o saldo será pago e a garantia baixada.
Descobrir uma alienação fiduciária na semana da escritura derruba negócio. Descobrir na captação permite montar o cronograma certo com o vendedor, o comprador e o banco. Prazos bancários também podem escorregar por fatores externos, como mostramos no guia sobre a greve da Caixa e o financiamento imobiliário, por isso vale deixar folga no cronograma.
Quais riscos o corretor deve deixar claros?
O principal risco é a perda do imóvel. Na alienação fiduciária, se o devedor para de pagar, o banco pode retomar o bem pelo rito extrajudicial previsto em lei, sem passar pelo processo judicial tradicional. Ou seja, é uma dívida que vale a pena contratar com propósito claro e parcela que caiba com folga no orçamento.
Outro ponto é o papel de cada profissional. O corretor não é consultor de crédito. O mais seguro é explicar o funcionamento geral, indicar que o cliente converse com o banco ou com um correspondente bancário e registrar essas orientações no atendimento.
Perguntas frequentes
Home equity é o mesmo que financiamento imobiliário?
Não. No financiamento, o dinheiro serve para comprar o imóvel. No home equity, o cliente já é dono do imóvel e o usa como garantia para receber um valor de uso livre.
Quanto dá para pegar no home equity?
Os grandes bancos aceitam emprestar até 60% do valor do imóvel, segundo o levantamento do Portas. Na média, porém, as operações do primeiro semestre de 2026 ficaram em 33% do valor, de acordo com a Abecip.
Imóvel ainda financiado pode ser usado como garantia?
Em alguns casos, sim, desde que exista margem de garantia e o banco aceite. O Marco Legal das Garantias facilitou novas operações com o mesmo credor, mas a análise é caso a caso.
O imóvel com home equity pode ser alugado?
Em geral, sim, porque o proprietário continua com a posse enquanto as parcelas estão em dia. Vale conferir as cláusulas do contrato com o banco antes de fechar a locação.
O que o corretor pode fazer agora
- Inclua a matrícula na captação. Peça o documento atualizado a cada novo imóvel e procure registros de alienação fiduciária antes de divulgar o anúncio.
- Monte um roteiro de venda para imóvel com garantia. Tenha um passo a passo pronto para quitação do saldo, emissão do termo pelo banco e baixa em cartório.
- Tenha contatos de crédito confiáveis. Um correspondente bancário ou gerente de referência ajuda o cliente a comparar o CET sem que você assuma papel de consultor financeiro.
- Converse com proprietários de imóveis parados. Para quem tem imóvel vago precisando de reforma, apresentar o home equity como uma das opções, com os riscos explicados, pode destravar a locação ou a venda.
- Registre tudo no atendimento. Anotar no CRM que o imóvel tem garantia bancária, qual o saldo informado e as datas combinadas evita surpresas no fechamento. Na NexReal, esse histórico fica no funil de cada lead e de cada imóvel, junto com a agenda de visitas e os documentos. Se você ainda está escolhendo uma ferramenta, veja quanto custa um sistema para imobiliária e o que avaliar além da mensalidade.
O crescimento do home equity mostra que o proprietário brasileiro está olhando para o imóvel também como fonte de crédito. Quem entende essa lógica atende melhor tanto quem vende quanto quem compra.