Selic a 13,75% trava o financiamento imobiliário? O que muda para corretores

Por Euder Carreiro (CRECI-MG 54.599) · Publicado em · Atualizado em · 10 min de leitura

Selic a 13,75% trava o financiamento imobiliário? O que muda para corretores

A Selic a 13,75% ao ano não travou o financiamento imobiliário, mas deixou o crédito caro e o comprador mais cauteloso. Mesmo com juro alto, os financiamentos com recursos da poupança (SBPE) somaram R$ 16,97 bilhões em agosto de 2026, alta de 46,6% em um ano, segundo a Abecip. Para o corretor, o desafio é qualificar melhor o cliente e trabalhar o prazo de decisão, não esperar o juro cair.

Resumo rápido

O que é a taxa Selic e por que ela mexe no financiamento?

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira, definida oito vezes por ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Ela não é a taxa do financiamento imobiliário, mas serve de referência para o custo do dinheiro que os bancos captam e emprestam.

Quando a Selic sobe, a renda fixa fica mais atraente e parte do dinheiro sai da caderneta de poupança, que é a principal fonte do SBPE. Com menos poupança disponível, os bancos recorrem a fontes mais caras, como letras de crédito imobiliário e securitização, e repassam esse custo ao comprador. Quando a Selic cai, o caminho se inverte, mas com atraso: as taxas de balcão costumam reagir meses depois da decisão do Copom.

Já o crédito com recursos do FGTS, usado no Minha Casa, Minha Vida, segue regras próprias e sofre bem menos com a variação da Selic. Essa diferença explica por que os dois segmentos andam em ritmos distintos em 2026.

Resumo dos dados

IndicadorResultadoPeríodo
Meta da taxa Selic13,75% ao anoDecisão de 16/09/2026 (281ª reunião do Copom)
Selic esperada para o fim de 2026 (mediana Focus)13,75% ao anoBoletim de 8/09/2026
Financiamentos SBPE no mêsR$ 16,97 bilhões (+46,6% em 12 meses)Agosto de 2026
Financiamentos SBPE no acumulado do anoR$ 132,5 bilhões (+37,5%)Janeiro a agosto de 2026
Financiamentos SBPE em 12 mesesR$ 192,4 bilhões (+20,2%)Até agosto de 2026
Crédito imobiliário total (projeção)cerca de R$ 410 bilhões (+25%)Ano de 2026

Fonte: Banco Central do Brasil — histórico das taxas de juros; Abecip via Jornal do Comércio — crédito imobiliário de agosto; Mercado & Consumo — projeção da Abecip para 2026

Por que o juro alto virou o principal desafio do próximo presidente?

Porque a Selic segue em patamar elevado mesmo depois dos cortes recentes, e isso pesa sobre crédito, consumo e investimento. Reportagem do G1 publicada em 4 de outubro de 2026 aponta o juro como o maior obstáculo que o vencedor da eleição encontrará a partir de 2027, junto com sinais de desaceleração da atividade.

Para o mercado imobiliário, isso significa que a pergunta “vale esperar o juro cair?” vai continuar aparecendo nas visitas. As pesquisas que mostram que a maioria mantém o plano de compra estão no artigo eleição trava a venda de imóveis? O que muda para corretores em 2026. O ponto agora é outro: o custo do crédito, que não depende só de quem vence a eleição, mas da inflação e das decisões do Banco Central.

A Selic a 13,75% está travando o crédito imobiliário?

Não, pelo menos nos números agregados. Segundo a Abecip, agosto de 2026 teve o terceiro maior volume de financiamentos SBPE para o mês em 25 anos, e o acumulado em 12 meses chegou a R$ 192,4 bilhões, alta de 20,2%.

O que os números não mostram é quem ficou de fora. Juro alto encarece a parcela e eleva a renda exigida para aprovar o crédito, então parte dos compradores de média renda adia a decisão ou reduz o valor do imóvel procurado. Na prática, o crédito cresce concentrado em quem tem renda comprovada folgada e entrada robusta. O corretor sente isso como visitas que não viram proposta e aprovações que voltam com valor menor que o pedido.

O presidente da Abecip, Michel Cury, avaliou em agosto que a procura por financiamento se manteve firme no primeiro semestre apesar do ambiente de juros elevados. Para entender a estrutura do SBPE e por que ele depende tanto da poupança, vale ler o guia completo do crédito imobiliário em 2026 para corretores.

Quando a Selic deve cair e o que esperar até 2027?

Não há data garantida. A próxima decisão do Copom sai em 4 de novembro de 2026 e a última do ano em 9 de dezembro, segundo o calendário de reuniões divulgado pela B3. Não haverá reunião em outubro.

O mercado, de acordo com o Boletim Focus de 8 de setembro de 2026, esperava a Selic terminando o ano em 13,75%, ou seja, sem novos cortes até dezembro. No comunicado de setembro, o Copom indicou que o tamanho total do ciclo de redução depende de novas informações, sem se comprometer com os próximos passos. Isso é projeção, não fato: qualquer surpresa na inflação ou no quadro fiscal pode mudar o rumo.

Para o corretor, a leitura prática é direta: quem vende contando com juro mais baixo no curto prazo está apostando. Melhor trabalhar com as taxas de hoje e tratar uma eventual queda como bônus, que o cliente pode aproveitar depois com a portabilidade do financiamento.

Quem sente mais o juro alto: comprador do MCMV ou do SBPE?

O comprador do SBPE sente mais. As linhas do Minha Casa, Minha Vida usam recursos do FGTS, com taxas definidas pelo programa, e por isso reagem pouco à Selic.

A diferença aparece nas projeções da Abecip divulgadas em agosto de 2026: o crédito do MCMV (FGTS e recursos do Pré-Sal) deve crescer 38% no ano, para cerca de R$ 195 bilhões, enquanto o SBPE deve avançar 18%, para cerca de R$ 185 bilhões. Já os financiamentos com recursos livres devem recuar para perto de R$ 31 bilhões.

Na rotina da imobiliária, isso sugere olhar a carteira por faixa de preço. Imóveis enquadráveis no MCMV tendem a girar mais rápido; os de médio e alto padrão financiados pelo SBPE pedem mais paciência, mais simulação e argumentos de valor. Lembre também que a entrada do comprador pode estar menor por causa do FGTS bloqueado, tema do artigo sobre como o saque-aniversário do FGTS afeta a compra do imóvel.

Como explicar o efeito do juro alto para o cliente?

Com números do próprio cliente, não com manchete. Mostre a simulação em pelo menos dois bancos, com o Custo Efetivo Total (CET) e o valor da primeira parcela, e compare com o aluguel que ele paga hoje.

Alguns argumentos funcionam melhor do que prometer queda de juros. O preço do imóvel pode subir enquanto o cliente espera, e esse efeito pode anular a economia de uma taxa menor no futuro. A portabilidade de crédito permite levar o financiamento para outro banco se as taxas caírem, desde que as parcelas estejam em dia. E amortizações extras reduzem o custo total do contrato, algo que muitos compradores nem sabem que podem fazer.

Evite afirmar que “o juro vai cair em tal mês”. Use a agenda do Copom como referência de quando haverá novidade, não como previsão de resultado.

O que muda para imobiliárias com carteira de locação?

Juro alto costuma manter parte das famílias no aluguel por mais tempo, o que sustenta a procura por locação. Para a imobiliária, é uma janela para captar imóveis de proprietários que não conseguiram vender pelo preço pedido e preferem gerar renda enquanto o mercado de compra está mais seletivo.

O outro lado é o investidor: com a Selic a 13,75%, a renda fixa compete diretamente com o retorno do aluguel. Na captação, mostre ao proprietário a rentabilidade líquida do imóvel (aluguel menos custos e vacância) e o histórico de valorização da região, para que ele compare as duas alternativas com dados.

Perguntas frequentes

Qual é a taxa Selic hoje?

A meta da Selic está em 13,75% ao ano desde a decisão do Copom de 16 de setembro de 2026, segundo o Banco Central. A próxima revisão será anunciada em 4 de novembro de 2026.

A Selic define a taxa do financiamento imobiliário?

Não diretamente. Ela influencia o custo de captação dos bancos e o volume da poupança, que abastece o SBPE, mas cada banco define a própria taxa. Linhas do FGTS, como as do Minha Casa, Minha Vida, seguem regras do programa.

Vale a pena esperar a Selic cair para comprar imóvel?

Depende do perfil do comprador. A mediana do Boletim Focus de setembro de 2026 indicava Selic estável até o fim do ano, então esperar pode significar adiar a compra por meses sem garantia de taxa menor. A portabilidade permite trocar de banco depois, caso as taxas caiam.

O financiamento imobiliário caiu com os juros altos?

Não no total. Segundo a Abecip, os financiamentos SBPE cresceram 37,5% de janeiro a agosto de 2026 frente ao mesmo período de 2025. O impacto aparece mais na seletividade dos bancos e na renda exigida do comprador.

O juro alto atrapalha o Minha Casa, Minha Vida?

Bem menos que o SBPE, porque o programa usa recursos do FGTS com taxas próprias. A Abecip projeta alta de 38% no crédito do MCMV em 2026.

O que o corretor pode fazer agora

A recomendação é ajustar o processo de venda ao juro de hoje, sem depender de queda da Selic no curto prazo.

  1. Segmente a carteira por fonte de crédito. Separe imóveis enquadráveis no MCMV dos que dependem do SBPE e defina metas e prazos diferentes para cada grupo.
  2. Faça a pré-análise de crédito antes da visita. Pergunte renda, FGTS disponível e valor de entrada logo no primeiro contato para não levar o cliente a imóveis que o banco não vai aprovar.
  3. Monte simulações comparativas. Leve pelo menos dois bancos, com CET e primeira parcela, e inclua a comparação com o aluguel atual do cliente.
  4. Marque 4 de novembro e 9 de dezembro na agenda. Nos dias seguintes às decisões do Copom, envie aos leads em negociação uma mensagem curta explicando o que mudou (ou não) para eles.
  5. Prepare o funil para ciclos mais longos. Com o comprador do SBPE demorando mais para decidir, registre cada lead, o motivo da pausa e a próxima data de contato. Um CRM como o da NexReal ajuda a não perder esse cliente no meio do caminho.
  6. Reforce a captação para locação. Proprietários que não conseguem vender pelo preço desejado podem aceitar alugar; ofereça a alternativa com números de rentabilidade.

Sobre o autor

Euder Carreiro

Euder Carreiro — Corretor de imóveis e construtor civil · CRECI-MG 54.599

Euder Carreiro atua há mais de 10 anos no mercado imobiliário: como construtor civil e, há 5 anos, também como corretor de imóveis (CRECI-MG 54.599). É formado em Engenharia de Petróleo e Gás pela UFES e em Engenharia de Segurança do Trabalho pela FUMEC. Criador da NexReal, escreve o Guia para ajudar corretores e imobiliárias a vender e alugar com mais método.

@eudercarreiro_ no Instagram

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